Do pesadelo à realização de um sonho

Detenta vira empresária e ajuda outras a reconstruir a vida em Campo Grande

16/08/2013 - 09h15

Do pesadelo da prisão à realização de um sonho. Esse é o enredo da vida de Lázara Martins dos Santos, hoje uma bem-sucedida empresária que cumpre pena no regime aberto em Campo Grande (MS). Ela teve acesso a estudo e trabalho, juntou dinheiro e, há seis anos, montou a Cantares Confecções, que fornece uma média mensal de mil peças de uniforme para mais de 20 clientes. “Sou uma pessoa realizada”, comemora, desejando que todas as mulheres presas no país, cerca de 35 mil, também tenham acesso a oportunidades de reintegração social. Com esse pensamento, e inspirada em sua própria história, Lázara tem entre seus funcionários duas mulheres cumpridoras de pena no regime aberto e outra que está em liberdade condicional.

“As autoridades precisam aumentar a oferta de qualificação profissional no sistema carcerário. Falta qualificação para o trabalho e faltam também palestras para conscientizar os presos. Isso é importante para eles tomarem o gosto pelo estudo, pelo trabalho, e seguirem o caminho certo, com amor próprio. Recomeçar é difícil, mas é gratificante”, assegura Lázara, abordando uma das principais deficiências do sistema carcerário brasileiro. Superlotadas, as prisões do país acumulam 550 mil detentos e são incapazes de promover a reinserção social.

A necessidade de ampliação das ações de capacitação profissional nos presídios é um dos temas a serem discutidos no II Encontro Nacional do Encarceramento Feminino, que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Departamento Penitenciário Nacional (Depen) vão promover, em Brasília, nos próximos dias 21 e 22. No evento, diversas autoridades e especialistas debaterão possíveis soluções para as dificuldades enfrentadas pelas mulheres no sistema carcerário. “Eu torço para que nesse encontro eles consigam resolver essa situação”, deseja Lázara.

Sua funcionária Maria das Graças pensa da mesma maneira e ainda diz que as mulheres sofrem discriminação até mesmo no sistema carcerário. Segundo ela, os homens presos têm mais acesso a oportunidades de capacitação profissional e trabalho. “O sistema deveria promover mais palestras para as mulheres sobre a importância do trabalho, do emprego, do convívio em família. Mas, infelizmente, as mulheres presas recebem menos atenção”, reclama.

Carteira assinada - Maria das Graças trabalha na Cantares há dois anos e há um ganhou a liberdade condicional. Nessa nova situação, segundo legislação penal, o regime de contratação deve ser alterado, não mais contando com isenções e outros benefícios oferecidos aos empregadores para estimular o emprego de detentos. Por isso, Maria das Graças agora tem carteira assinada, com todos os direitos previstos na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). “A Lázara me deu um voto de confiança. Se outros empresários fizessem o mesmo, sem preconceito, muitas mulheres não teriam voltado ao crime”, avalia Maria das Graças.

Lázara Martins dos Santos começou a estudar e a trabalhar quando estava no regime semiaberto. Nessa fase, era copeira do Conselho da Comunidade de Campo Grande, onde também passava as noites. “Quando trabalhava no Conselho, botei na cabeça que iria estudar e ter uma vida digna. Estudava e trabalhava. Juntei dinheiro e, como já sabia costurar, comecei a comprar umas máquinas do tipo industrial. Montei a empresa e hoje tenho 18 máquinas. Hoje, minha autoestima está lá em cima!”, comemora Lázara, acrescentando que sua empresa é devidamente regularizada junto à prefeitura.

A realização de seus sonhos não a impede, porém, de ainda querer mais. No ano que vem, Lázara pretende concluir o curso superior de design de moda. “Esse é mais um sonho que vou realizar. Com essa formação, pretendo melhorar ainda mais a qualidade das roupas fabricadas pela minha empresa”, calcula a empresária. E, como se não bastassem tantas conquistas, ela anuncia mais uma: “em outubro, vou ganhar a liberdade condicional”.

 

Jorge Vasconcellos
Foto/Fonte: Agência CNJ de Notícias



 

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