Em iniciativa inédita, Tribunal realiza mediação virtual dentro de presídio

Presídio da cidade de Sorriso, em Mato Grosso. Crédito: Divulgação/TJMT

Em iniciativa inédita, TJMT realiza mediação virtual dentro de presídio

25/09/2015 - 12h28

Em uma parte da tela do computador, é possível ver Kléber, preso há dois anos, no Centro de Ressocialização de Sorriso (MT), acusado de homicídio. De outro, está sua ex-mulher Isaura acompanhada de um defensor público e, no canto da tela, estão os mediadores do Centro Judiciário de Mediação e Solução de Conflitos (Cejusc) da comarca de Sorriso – os nomes das partes são fictícios. Todos conversam tranquilamente e decidem acerca do futuro do filho de Kléber e Isaura, de 11 anos, que não é beneficiado com pensão alimentícia desde que o pai foi preso. A situação inédita passa a ser possível a partir de hoje por meio do projeto de mediação virtual do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), que possibilita ao preso e sua família solucionar demandas cíveis por meio de acordo consensual, sem a necessidade de judicializar o conflito.

A mediação é um método voluntário de solução de disputa, no qual uma terceira pessoa conduz a negociação, mas sem poder de decisão. Seu papel é estimular as partes a desenvolverem soluções consensuais para o conflito. Em geral, trata de ações complexas, de relação continuada, como conflitos familiares ou criminais. A prática é incentivada pela Resolução 125/2010 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que institui a Política Nacional de Conciliação e prevê que os tribunais devem oferecer mecanismos de soluções de controvérsias, em especial os chamados meios consensuais, como a mediação e a conciliação, e prestar atendimento e orientação ao cidadão.

A primeira mediação virtual realizada dentro do presídio foi idealizada pelo juiz titular da Comarca, Anderson Candiotto, que já possuía prática de mediação virtual. “Com a técnica, conseguimos resolver conflitos na esfera cível que antes teriam que ser judicializados pela impossibilidade de o estado custear uma escolta para transportar o preso a um centro de conciliação”, conta o juiz Candiotto. Além de poupar a máquina judiciária, outro benefício que o magistrado ressalta é a oportunidade dada à pessoa presa de participar, por exemplo, de decisões acerca da guarda de seus filhos, o que não seria possível judicialmente, já que o processo teria que correr à sua revelia.

Acordo consensual - Dos quase 280 presos da comarca, 50 possuem demandas cíveis que serão submetidas à mediação virtual. Foi o caso de Kléber, que participou pela manhã da mediação dentro do presídio, em uma sala que foi decorada seguindo a mesma preocupação da sala do Cejusc, de modo a facilitar diálogos e acordos entre as partes. Além de resolver a questão da pensão alimentícia para seu filho, Isaura, sua ex-mulher, também tentava obter a guarda do filho e o consentimento para formalizar o divórcio, além de voltar a usar seu nome de solteira. “Ela é uma excelente mãe para meu filho, não tenho mágoas e ela pode ter a guarda”, disse Kléber, visivelmente emocionado ao ver a ex-mulher pela tela. Kléber, que antes de ser preso trabalhava prestando serviços em fazendas da região, deu o consentimento para o divórcio e propôs destinar o auxílio-reclusão que vier a receber – pois ainda não conseguiu fazer o pedido – ao filho. Além disso, declarou na audiência que abre mão do terreno que ambos teriam adquirido no Maranhão. “Não quero nada, pode ficar para ela e meu filho”, disse.

Participação voluntária – Antes de começar a sessão de mediação, conduzida pelas mediadoras do Cejusc Bárbara Elisa Benitez de Araújo e Vânia Caroline Schwann, foi esclarecido às partes, que não conheciam a prática, que a participação de ambas na tentativa de acordo é voluntária e que nenhuma solução seria imposta pelos mediadores. “O procedimento é sigiloso, nada será gravado e, havendo acordo, será levado ao juiz e seu cumprimento é obrigatório”, ressaltou Vânia.

A mediação realizada dentro do presídio pelo TJMT segue a tendência de informatização do Judiciário brasileiro. Já é realidade em diversos estados, por exemplo, a realização de audiências de réus presos por meio virtual.

Outra iniciativa nesse sentido, reconhecida em 2015 pelo CNJ por meio do Prêmio Conciliar é Legal, é o projeto Conciliação sem Fronteiras, idealizado pelo defensor público Cassio Bitar Vasconcelos, da Defensoria Pública do Estado do Pará. A prática, implementada em 2012, tem o intuito de promover via internet a solução de conflitos entre pessoas de comarcas distintas que não teriam como sair de suas cidades para comparecer a uma audiência em outra localidade, seja por problema de saúde ou financeiro.

A utilização de ferramentas tecnológicas pelos tribunais é estimulada pelo CNJ, que conta com um projeto que tem por objetivo informatizar e interligar a Justiça brasileira, o Processo Judicial Eletrônico (PJe). O Poder Judiciário já tem 5,274 milhões de ações tramitando no Processo Judicial Eletrônico (PJe), presente em 44 tribunais.

Lei da Mediação – A Lei 13.140, conhecida como “Lei da Mediação”, foi sancionada em junho deste ano. A proposta, elaborada com a participação do CNJ, tem como uma das principais finalidades resolver conflitos de forma simplificada e rápida para ambas as partes e, com isso, reduzir a entrada de novos processos na Justiça.

O CNJ colocou à disposição para download em seu Portal a 5ª edição do Manual de Mediação Judicial. A publicação, apoiada pelo CNJ, é parte do material pedagógico de apoio nos cursos de mediação e conciliação, que também incluem vídeos, exercícios simulados e slides realizados pelo CNJ. Todo o material está em conformidade com a Resolução 125/2010 e a Recomendação 50/2014 do órgão.

Luiza de Carvalho Fariello
Agência CNJ de Notícias

Notícias

STJ não conhece recurso sobre caução em penhora por falta de impugnação

STJ não conhece recurso sobre caução em penhora por falta de impugnação 4ª turma manteve decisão sem analisar mérito por óbices processuais. Da Redação quarta-feira, 15 de abril de 2026 Atualizado às 11:09 A 4ª turma do STJ, por unanimidade, não conheceu de recurso especial em caso que discutia a...

Intenção de compra de imóveis atinge maior nível em um ano

Intenção de compra de imóveis atinge maior nível em um ano Letícia Furlan Repórter de Mercados Publicado em 11 de abril de 2026 às 14h00. Entre os recortes analisados, o destaque está nas gerações mais jovens. A geração Z, formada por pessoas entre 21 e 28 anos, lidera a intenção de compra, com 59%...

Gênero não binário integra personalidade e pode estar no registro civil

Questão de identidade Gênero não binário integra personalidade e pode estar no registro civil 9 de abril de 2026, 10h38 “O Colendo Supremo Tribunal Federal, no julgamento da ADI 4275, que analisou a possibilidade de alteração do prenome e do sexo no registro civil de pessoa transgênero, assentou...

Testamento estrangeiro com bens no Brasil: Por que o STJ negou a homologação?

Testamento estrangeiro com bens no Brasil: Por que o STJ negou a homologação? Adriana Ventura Maia Supremo decide que bens no Brasil exigem inventário nacional, mesmo com testamento estrangeiro, reforçando a soberania e a segurança jurídica sucessória. quinta-feira, 9 de abril de 2026 Atualizado em...