Meio século depois, bonde volta na versão VLT

Passageiros do  VLT podem apreciar belos prédios como o do Theatro Municiapal  Fernando Frazão/Agência Brasil

Meio século depois, bonde volta ao centro do Rio na versão VLT

06/06/2016 14h51  Rio de Janeiro

Meio século após sua extinção em praticamente toda a cidade – só sobreviveram os que servem ao bairro de Santa Teresa – o bonde volta ao Rio de Janeiro, em uma versão moderna e tecnologicamente avançada.

Inaugurado neste domingo (5) pelo prefeito Eduardo Paes, o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) vai operar de forma progressiva em sua primeira linha, que liga a Rodoviária Novo Rio ao Aeroporto Santos Dumont, até o próximo dia 30, para que a população se acostume à circulação dos bondes na zona portuária e no centro da cidade.

A linha Rodoviária-Santos Dumont tem 18 quilômetros em trilhos, 17 paradas e uma estação. No primeiro mês, período de adaptação, não haverá cobrança de tarifa e o VLT transportará passageiros de segunda a sexta-feira, das 12h às 15h, com embarque e desembarque em oito paradas nos dois sentidos: Parada dos Museus (na Praça Mauá), São Bento, Candelária, Sete de Setembro, Carioca, Cinelândia, Antônio Carlos e Santos Dumont.

A previsão é que toda a primeira linha entre em operação comercial no dia 1º de julho. A tarifa, de R$ 3,80, é a mesma dos ônibus. O usuário de outros modais poderá usar o Bilhete Único Carioca para completar o deslocamento no VLT, desde que isso seja feito em um período de duas horas. Como não haverá cobrador, o usuário deverá validar o bilhete nos equipamentos instalados em cada composição.

“No Dia Mundial do Meio Ambiente, esse é um veículo que representa o futuro da cidade: não poluente, silencioso, que retira carros das ruas, ou seja, é tudo o que a gente quer de mais moderno para o Rio de Janeiro”, disse o prefeito Eduardo Paes, em entrevista à imprensa antes de embarcar no trem batizado com o nome do escritor João do Rio (1881-1921) na parada Utopia AquaRio.

De acordo com o prefeito, o VLT é um esforço de mobilidade inspirado pela Olimpíada, mas não faz parte dos compromissos da cidade para a realização dos jogos. "O VLT] é  um integrador de todos os modais de transporte da cidade e muda a face do centro do Rio. É um esforço para resgatar o centro como uma área em que as pessoas venham, frequentem, apreciem e que, no futuro, possam vir a morar também.”

Paes disse esperar que os turistas aproveitem o VLT para conhecer a histórica área central da cidade. “Aqui existe um roteiro de centros culturais, prédios e igrejas belíssimos. A formação do Brasil se deu a partir do centro do Rio: aqui chegou a família real portuguesa. Para quem vem de São Paulo pela ponte aérea, o VLT chegando ao Aeroporto Santos Dumont vai permitir desfrutar intensamente o centro”.

Na parada seguinte, a dos Museus, Paes desceu do trem e descerrou a placa comemorativa da inauguração, ao lado da sambista Tia Surica, da Velha Guarda da Portela. Depois, embarcou em outra composição, com o nome da lendária precursora do samba Tia Ciata (1854-1924).

Na parada Carioca, ao som da bateria da Portela, o prefeito inaugurou o passeio público da Avenida Rio Branco, uma nova área de lazer com 14 mil metros quadrados (m²) e 600 metros de extensão, fechada ao tráfego, com exceção do VLT. O local ganhou 35 árvores, 1.620 m² de canteiros verdes, além de bicicletários, bancos e nova iluminação pública.

Adaptação

No período de adaptação, a maior preocupação da prefeitura é com a segurança plena aos passageiros e a convivência entre pedestres, veículos e VLT. “O pedestre precisa ficar atento, já que o trem é silencioso. Os trens vão circular com intervalos muito curtos. O pedestre, ao atravessar a rua, tem que lembrar, a partir de agora, da existência do VLT, assim como os motoristas devem respeitar os cruzamentos”, disse o secretário municipal de Transportes, Rafael Picciani.

O secretário lembrou que, desde março, está sendo realizada uma campanha educativa, em parceria com o consórcio operador do Veículo Leve sobre Trilhos, com o nome de Olho no VLT.  A campanha ocupa ruas, mídias sociais, mídia mobile e rádio e inclui a distribuição de 50 mil adesivos, 250 mil folhetos, além da instalação de 22 painéis e displays ao longo do centro e da região portuária.

Segundo Picciani, inicialmente, haverá batedores de moto à frente dos trens, para dar um reforço à atenção do pedestre."Porém, a população em pouco tempo terá o VLT rodando 24 horas por dia, com intervalos curtíssimos e precisa se habituar a isso”, alertou o secretário.

Movido a eletricidade, o VLT carioca dispensa o uso de fiação aérea, como ocorre em veículos similares que circulam em cidades de todo o mundo. A tecnologia inovadora, já empregada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, consiste na captação da energia por meio de um terceiro trilho instalado entre os trilhos de rolamento do trem.

Até o fim do ano, deverá entrar em funcionamento a segunda linha, ligando a Estação das Barcas, na Praça Quinze, à Central do Brasil. A terceira, que percorrerá a Avenida Marechal Floriano, da Central ao entroncamento com a primeira linha, na Avenida Rio Branco, deverá ser implantada em 2017.

A implantação do sistema teve custo de R$ 1,157 bilhão, sendo R$ 532 milhões em recursos federais do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Mobilidade, e R$ 625 milhões por meio de uma parceria público-privada (PPP) da prefeitura do Rio.

Rio de Janeiro - Viagem inaugural do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) Carioca, no centro da cidade (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Ruas do centro, com seu casario antigo, estão incluídas na primeira linha do VLT Fernando Frazão/Agência Brasil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Especialista em história do Rio de Janeiro e presente à viagem inaugural, o professor Milton Teixeira acha que o VLT resgata para o carioca o prazer de observar o centro da cidade.

“Ele é todo envidraçado e permite ao usuário desfrutar a paisagem. E você vai poder realizar aquilo que João do Rio, que dá nome a esse trem, já propugnava há 110 anos: andar despreocupadamente pela cidade, apreciando as belezas, conhecendo os locais. Porque você só pode amar aquilo que conhece”, disse o historiador.

Edição: Graça Adjuto
Agência Brasil

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