Inteligência Artificial e Herança. Tudo será como antes?

Inteligência Artificial e Herança. Tudo será como antes?

Autor: Patrícia Corrêa Sanches | Data de publicação: 28/02/2023

Patrícia Corrêa Sanches
Presidente da Comissão Nacional
de Família e Tecnologia do IBDFAM

Uma das ferramentas mais inovadoras e intrigantes da tecnologia, sem dúvida, é a Inteligência Artificial (AI). Em verdade, é um conceito guarda-chuva que agrega várias tecnologias, como machine learning, rede neural, robótica, dentre outros. Porém, importante perceber que o termo “inteligência” quando se refere à máquina, não se confunde com a inteligência humana, que tem como base a experiência existencial (nascer, viver, conviver, morrer) – o que a inteligência artificial (ainda?) não possui.

O que é, então, a Inteligência Artificial? Em um limitado conceito, é uma função computacional de gerar soluções ou resultados automatizados, a partir das informações que estiverem disponíveis em uma determinada base de dados.

Mas o que nos traz aqui é a convergência ou o impacto da IA no direito sucessório, mais precisamente no conceito de herança – um convite à reflexão.

Vejamos o exemplo do astro Kurt Cobain, que foi um famoso cantor, compositor, guitarrista e fundador da banda Nirvana. Falecido precocemente, em 1994, deixando uma legião de fãs, sendo uma das celebridades já falecidas que mais lucraram nos últimos anos. Recentemente, ferramentas de Inteligência Artificial processaram todas as músicas cantadas por ele e sua banda Nirvana, criaram uma nova obra com letra, música, arranjos, fundo musical, com a voz do cantor e sua banda, que também deixou de existir na mesma época. Mas vejam, essa obra não foi deixada no acervo do cantor ou da banda. Foi criação nova, gerada quase três décadas depois da abertura da sucessão.

Agora, vamos à problemática jurídica: herança é o “conjunto de bens e de direitos deixado por uma pessoa que faleceu”, conforme preceitua o Dicionário de Direito de Família e Sucessões escrito por nosso presidente do IBDFAM, Rodrigo da Cunha Pereira (2ª.ed. Saraiva). Significa dizer que o acervo hereditário é referente ao resultado da produção que a pessoa gerou durante sua vida.

No entanto, no exemplo acima,  Kurt Cobain não criou e nem deixou essa obra, nunca cantou essa música . Na realidade, a utilização de IA “gravou” uma música inédita 29 anos após o cantor ter falecido.

Chegou o momento da reflexão: considerando que a herança é o acervo criado e deixado pelo falecido, teriam os herdeiros do cantor o direito de herança sobre uma obra que não existia quando do advento de sua morte, gerada quase 30 anos depois?  Ou seja, será que a Inteligência Artificial está a alterar o conceito de herança?

Agora, analisemos a recente manchete veiculada na CNN Brasil: “App de Inteligência Artificial permite conversar com os mortos”. Trata-se de uma IA avançada, desenvolvida por uma empresa que compila voz e gestos, além de toda a história de vida da pessoa falecida. A partir daí, é só perguntar que a “pessoa falecida” irá responder como se estivesse viva, porém “morando” dentro da plataforma digital, que pode ser acessada de qualquer lugar e a qualquer instante.

Nos ensinamentos de Maria Berenice Dias, uma das juristas de maior respeitabilidade no país, o direito sucessório precisa ser compreendido considerando não apenas sua dimensão técnica mas, também, sua dimensão social e cultural (Manual das Sucessões, 8ª.ed, Juspodivm). Nessa perfeita ótica, se faz necessário considerar o advento da tecnologia como impactante nas relações sociais, que provoca novas regulações e conceitos jurídicos. Exemplos não faltam, como a própria herança digital, a proteção de dados no post mortem, criptoativos, entre tantos outros.

Assim, além de repensarmos o conceito de herança no advento da Inteligência Artificial, estaria ela, nos levando a novos patamares de concepção jurídica para a própria morte e a um novo contorno do Direito das Sucessões? Independente da resposta a que cheguemos, tenho como certo que precisamos continuar debatendo os novos conceitos e os novos Direitos que surgem com o acelerado avanço da tecnologia, especialmente da Inteligência Artificial.

Referências:

https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/isso-e-muito-black-mirror-app-de-inteligencia-artificial-permite-conversar-com-os-mortos/

https://olhardigital.com.br/2021/04/05/internet-e-redes-sociais/inteligencia-artificial-consegue-ressuscitar-kurt-cobain-e-criar-musica-inedita-do-nirvana/

Fonte: IBDFAM

Notícias

Justiça determina continuidade de pagamento de pensão para filha de 25 anos

Extraído de Recivil Justiça determina que pai continue pagando pensão para filha de 25 anos A Segunda Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ/AL), durante sessão realizada nesta quinta-feira (07), deu provimento parcial à apelação cível interposta por uma jovem de 25 anos que pleiteava a...

Servidor aprovado em novo concurso não aproveita vantagens do cargo anterior

23/03/2011 - 08h02 DECISÃO Servidor aprovado em novo concurso não aproveita vantagens do cargo anterior O tempo exercido por um servidor no cargo de Analista Judiciário – Área Judiciária não lhe dá o direito de assumir o cargo de Analista Judiciário – Área de Execução de Mandados (oficial de...

STF afasta quantidade de droga como impedimento a redução de pena

Terça-feira, 22 de março de 2011 2ª Turma afasta quantidade de droga como impedimento a redução de pena A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) acolheu parcialmente pedido da Defensoria Pública de Minas Gerais e determinou ao juízo de primeiro grau que proceda a nova individualização da...

Obrigação subsidiária em pensão alimentícia

22/03/2011 - 08h06 DECISÃO Obrigação subsidiária, em pensão alimentícia, deve ser diluída entre avós paternos e maternos De acordo com o artigo 1.698 do novo Código Civil, demandada uma das pessoas obrigadas a prestar alimentos, poderão as demais ser chamadas a integrar o feito. Com esse...

Magistrado reverte guarda de criança após constatação de alienação parental

Extraído de Recivil Magistrado reverte guarda de criança após constatação de alienação parental O juiz Geomir Roland Paul, titular da Vara da Família da Comarca de Brusque, deferiu pedido de tutela antecipada para reverter a guarda de uma criança, filha de casal separado, em favor do pai. A medida...