Saia justa em audiência

Saia justa em audiência

(26.10.12)

Por Anna Maria Petrone Pinho,
advogada  (OAB/RS nº 11.819)

A professora aposentada está com seu Renault Clio parado no semáforo, quando sofre violento choque na traseira do seu veículo.

Da potente caminhonete causadora do acidente desce um casal jovem oferecendo R$ 1 mil para encerrar o caso. A lesada não aceita e chama a EPTC. O motorista fornece endereço (inverídico) e é constatado que o proprietário do veículo é um seu irmão, advogado.

A lesada tenta, via telefonema, o ressarcimento; mas é repelida com rispidez pelo pai dos responsáveis pelo fato delituoso, que manda que ela "procure seus direitos".

Contratada pela professora-vítima, proponho no JEC ação contra os dois réus. Na audiência de conciliação, os réus não reconhecem a culpa pelo acidente. O procurador tenta demonstrar culpa concorrente.
   
Na audiência de instrução, a juíza leiga pergunta:

- Há possibilidade de um acordo?

O dono do carro responde rápido:
   
- Sim, eu e a senhora fulana já fizemos um acordo por telefone.
   
Susto! O procurador dos réus e eu nos olhamos perplexos. Nenhum de nós dois sabe do tal acordo. Num impulso repilo:

- Não é verdade!
   
O réu perquire a autora:
   
- A senhora não fez acordo comigo por telefone?
   
- Sim! - responde minha cliente, laconicamente.

Eu, mesmo desconhecendo a conversa telefônica, argumento:

- A minha cliente disse ´sim´, mas eu vou pensar. Se acordo houvesse não estaríamos aqui, com orçamentos, fotografias, tomando o tempo de Vossa Excelência...

O procurador dos réus, refeito da surpresa, tenta provar a existência do suposto acordo de R$ 2 mil.

A juíza, já impaciente, pergunta à autora:

- A senhora confirma, ou nega, que tenha composto com os réus?"

- Eu disse o que a doutora falou, ´sim, eu vou pensar´.

Na saída, digo palavras duras à minha cliente. O feito prossegue. Sentença: procedência da ação. Recurso: improvido por unanimidade. Minha constituinte recebe importância muito superior aos R$ 2 mil.

Meus honorários? Não recebi! Mas tive uma recompensa: um telefonema do réu condutor do veículo causador do acidente, estudante de Direito:

- Quando me formar quero ser como a senhora, doutora!

Fonte: www.espacovital.com.br

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