Quando o pai é uma lacuna

Quando o pai é uma lacuna
Segunda, 22 Setembro 2014 09:53

Levantamento mostra que uma em cada 20 crianças registradas em São Paulo não tem o nome paterno na Certidão de Nascimento. Para especialistas, a ausência pode trazer consequências, como a baixa autoestima e o isolamento social

Uma lacuna na Certidão de Nascimento que se prolonga no decorrer da vida. Permanece na Carteira de Identidade, na de motorista. Incomoda nas festinhas que a escola teima em fazer todo segundo domingo de agosto. Embaraça nas perguntas dos desavisados sobre com quem da família as semelhanças físicas são mais fortes. Entristece na porta da igreja ao som da marcha nupcial. “Meu tio já disse que entrará comigo quando eu resolver me casar. Ele é como um pai para mim, mas sinto falta de conhecer o meu de verdade”, conta Natália da Silva Dantas.

Os dois sobrenomes vêm da mãe. Do pai, a brasiliense de 25 anos só tem uma foto, o primeiro nome e a cidade onde ele nasceu, no Paraná. A escassez de informações sobre a própria origem já fez Natália se sentir diferente em relação aos outros. Tanto que ela se assusta ao saber que uma em cada 20 crianças registradas em São Paulo, estado mais populoso do país, não tem o nome do pai na Certidão de Nascimento. Medida a pedido do Correio pela Associação dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-SP), a média se refere a 2012, 2013 e 2014 (até abril).

Em números absolutos, são 84 crianças por dia registradas em São Paulo, no primeiro quadrimestre deste ano, com a filiação incompleta. Dados apurados nos 12 cartórios do Distrito Federal pela Associação dos Notários e Registradores do Brasil (Anoreg-BR) apontam taxa de certidões apenas com o nome da mãe semelhante ao indicador paulista (veja quadro). Informações suficientes para dar ideia do batalhão de meninos e meninas que, se nada mudar, terão de lidar com a falta da figura paterna e as consequências relacionadas a ela.

“Claro que esse papel pode ser desempenhado por outro homem, como um avô, mas o impacto para o desenvolvimento da criança é indiscutível. Porque o filho vem numa extensão da mãe, uma relação simbiótica. O pai, quando entra nessa relação, coloca os primeiros limites para dizer: ‘olha, não vai ser tudo do jeito que você quer’. E isso é muito importante”, explica a psicóloga Andrea Halwass. Com o passar do tempo, diz a profissional, surgem reflexos de baixa autoestima, isolamento social, dificuldades cognitivas e postura desafiadora. “Claro que cada caso é um caso”, pondera.

Medo
Natália soube, desde criança, do sumiço do pai depois da gravidez. Na adolescência, a falta do homem que lhe “deu a metade dos genes” já foi motivo de atrito com a mãe. “Mas ela sempre reforçou que eu não era pior do que ninguém por ser filha de mãe solteira. Só que eu tenho curiosidade. Será que ele é careca? Será que tenho irmãos? Já tentei procurá-lo, mas ao mesmo tempo vem uma insegurança. E se ele me rejeitar de novo?”, diz. Ela chegou a ir ao hotel em que o pai costumava ficar em Brasília, pois trabalhava em várias cidades como funcionário de uma extinta empresa da área de telecomunicações, mas o lugar não existe mais.

As poucas informações sobre ele estão anotadas em um caderno. Ela costuma mostrar a foto, em que o homem aparece ao lado de vários amigos na época do relacionamento com a mãe, para que o interlocutor adivinhe quem é. “Acho que sou parecida com ele, todo mundo acerta”, conta. A tranquilidade para falar da falta que o pai faz vem dos anos de terapia ainda mantida, da maturidade conquistada e da admiração nutrida pela mãe. “Tenho muito orgulho dela, por ter me criado sozinha, apesar das dificuldades”, diz. “Agora, é claro que me marca muito. Até nos meus relacionamentos com namorados, essa ausência da figura de um pai já atrapalhou.”

Para a presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Luciana Barros de Almeida, por mais doloridos que sejam os relatos, mães devem atender à curiosidade dos filhos sem pai conhecido. “É saudável que ele saiba como começou a história dele, isso é parte integrante da identidade. Todos temos que conhecer de onde tudo se iniciou, mesmo que chegue o momento de dizer que o pai, ao tomar conhecimento da gestação, não mais procurou a mãe. É esclarecedor e pode evitar suposições e fantasias da criança”, defende Luciana.

pai substantivo masculino
1 homem que gerou um ou mais filhos; genitor, progenitor
2 homem em relação aos seus filhos, naturais ou adotivos
3 autor, mentor
4 iniciador, fundador
5 animal do sexo masculino que deu origem a outro
6 tratamento que alguns fiéis dão aos padres
7 aquele que pratica o bem, que ajuda ou favorece; benfeitor, protetor
8 tratamento afetuoso que se dava aos idosos
9 Derivação: sentido figurado. o que faz com que algo exista ou aconteça; causa; causador


Fonte: Houaiss
Fonte: Correio Braziliense
Extraído de Anoreg/BR

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